Os mortos e os sobreviventes
Como tudo o mais, os negócios vêm sendo afetados pela transformação digital. Por isso, as operações mais antigas, criadas ainda no século passado, precisam se adaptar para sobreviver.
Portanto, cada empreendedor-gestor deve perceber até onde consegue acompanhar as inovações digitais, ciente de que o mínimo necessário já exigirá bastante em termos de novos conhecimentos e práticas operacionais.
Também, não faz sentido acreditar que tudo pode continuar igual com apenas alguns ajustes, como melhorar o site ou postar no Instagram. As mudanças digitais são mais profundas e abrangentes do que parece. Muitos concorrentes já perceberam isso.
Então, não subestime as mudanças digitais só porque ainda não afetaram você diretamente. Esse tipo de atitude pode levar à exclusão, como mostra a história do sapo.
Se o sapo estiver na panela desde antes de ligar o fogo, não perceberá a água ferver, pois, como é ectodérmico, a temperatura do seu corpo se ajusta àquela do ambiente. Por não perceber o aquecimento progressivo da água, ele morre sem esboçar qualquer reação.
Fique atento. Longe de ser uma qualidade, a capacidade de tolerar os efeitos de mudanças profundas imobiliza e enfraquece com o tempo. Então, não sejamos como o sapo que se acomodou até morrer, vamos pular dessa panela antes que a água ferva.
Devemos enxergar a gravidade da situação, mas, por outro lado, não precisamos ficar desesperados. Não estamos sozinhos. Mais de 70% da população mundial está em situação igual a nossa – se não excluídos do mundo digital-virtual, certamente capengando entre erros e acertos (mais do primeiro e menos do segundo).
Segundo o futurista norte-americano Stuart Candy, professor da Carnegie Mellon School of Design, “a melhor defesa ante um futuro assustador é refletir sobre ele, imaginando diferentes cenários para tentar evitar surpresas”. Nós seguimos sua linha de pensamento. Temos certa experiência no tema, pois esta geração nasceu em meio a esse atual processo disruptivo. Vivemos o aprender hoje para usar amanhã.
Só aceitar que um futuro diferente vai ser estabelecer não resolve tudo, mas, certamente, é um começo. Daí, com um olhar mais amplo, que abrange do passado ao futuro, podemos encontrar oportunidades na transição.
Como nada mais é definitivo, vamos criar soluções para os problemas da transitoriedade que enfrentamos. Se recebemos limões em vez de laranjas, façamos a melhor limonada possível, certo?
Não dispomos das melhores condições para competir com as novas gerações, portanto, precisamos decidir o que fazer para sobreviver.
Como lidar com essa disruptura
Respeitar a grandeza de uma disruptura não exige se submeter a ela. Em vez disso, devemos observá-la por diferentes perspectivas (antigas e novas) para entendê-la, pois a negação é o maior problema. Muitos acham que podem continuar a produzir, consumir e viver como antes e tratar as mudanças como superficiais.
Isso equivale a aceitar passivamente as mudanças sem interagir com o novo, sentindo-se incapaz de acompanhar as transformações. Em vez disso, a atitude correta é conhecer os fundamentos dessas transformações digitais-virtuais.
Entender o “novo diferente” exige expandir nossa forma de ver o mundo, observando os acontecimentos sob novas perspectivas. Não precisamos entrar em desespero nem ficar de fora. Se uma criança consegue se adaptar a novidades, por que não poderíamos também? É como aprender a andar de bicicleta: precisamos de decisão e persistência. Com o tempo, tudo fluirá com naturalidade.
Devemos ter em mente que, só após conhecer uma inovação, podemos se e como a adotaremos. Chamamos isso de a “aceitação possível”.
Mudança de paradigma
Não há dúvidas de que os maduros de hoje precisam desenvolver um mindset de transição, um conjunto de novos conceitos amarrados que nos permita entender como o mundo é e será – comparativamente aos mindsets anteriores.
Adotar um mindset de transição começa por reconhecer que não somos nativos digitais e nada é tão simples quanto parece, ao menos, não para os maduros.
De fato, nas inovações comuns, a essência se mantém, enquanto a forma, o meio de acesso e a qualidade do retorno se modificam. Mas, quando lidamos com disrupturas, temos transformações de motivos e dinâmicas, onde a essência também se altera.
Você usa a câmera do celular? Conhece o TikTok? Recebe dinheiro pelo número de visitas ao seu canal? Muitas pessoas subestimam essas mudanças profundas até perceber que não se trata de um simples upgrade, mas de um novo programa (outro paradigma).
Um bom exemplo é a transição da máquina de escrever para o editor de texto Word. Ambos registram conteúdos escritos, mas o computador trouxe novas possibilidades. Não é só digitar e imprimir textos com mais facilidade; os editores digitais mudaram a forma de armazenar, organizar e compartilhar arquivos.
Hoje, textos digitais dispensam impressões em papel, pois temos criptografia e certificações digitais. Contudo, muitas vezes ficamos presos a “esforços adaptativos”, sem mudar realmente o paradigma. Só ao reconhecer a disruptura como tal – um corte em valores, a inserção de uma nova cultura e o surgimento de dinâmicas de vida diferentes – entenderemos o verdadeiro alcance dessa mudança.
Pela perspectiva do mindset digital, nunca fez sentido sair do analógico (máquina de datilografia) para o digital (editor de textos) só para produzir uma nova cópia analógica (impressão), mas a resistência das pessoas em incorporar os efeitos de uma disruptura faz a transição começar por esforços adaptativos.
Essa grande disruptura ocorrida no final do século XX separou gerações em “analógica” e “digital”. Entre elas, surgiu um grupo intermediário que transita entre o antes e o agora, aprendendo a integrar o “novo modelo” à sua realidade, em vez de tentar usá-lo como uma “versão melhorada” do modo antigo.
As cinco fases da B1G
De acordo com o futurista Alvin Toffler, as grandes transformações da humanidade começaram pelo modo de obter energia, o que definiu como as pessoas produziam, consumiam e organizavam a sociedade. Já vimos essas etapas evolutivas: extração (caça-coleta), agricultura, indústria (força bruta), serviços (produção em formato de serviço) e, agora, digitalização-virtualização (produção por inteligência).
Cada disruptura foi mais intensa que a anterior, mas não aconteceu de uma só vez para todos. É como o movimento das marés: avança, recua um pouco e depois prossegue mais adiante. Enquanto boa parte do mundo já opera em sociedades industriais em modelo lógico-formal, há regiões (por exemplo, a África subsaariana) em que a subsistência é agrária e, ainda, lugares remotos (como tribos indígenas da Amazônia) onde se vive de caça e coleta.
Mesmo nos centros urbanos mais desenvolvidos da América do Norte, Europa Ocidental, China, Japão, tigres asiáticos ou grandes metrópoles brasileiras, a transição para a sociedade do conhecimento ainda não se completou. Mas não nos deixemos enganar. Enquanto dormimos, as ondas continuam seu avanço silencioso pela madrugada. Em breve, todos sentiremos a água do mar chegar aos nossos pés, não importa onde estivermos.
No início, a reação a essa transformação analógico-digital é fazer pequenos ajustes, pensando que “a maré ainda está longe”. Mas, aos poucos, vemos a força dessa mudança e percebemos que ela nos empurra para uma nova dinâmica socioeconômica. Leva tempo para a maioria entender que o novo veio para ficar e que, sem se reinventar, será difícil sobreviver.
Assim, ao falar de transição do analógico para o digital, enxergamos cinco fases diferentes, que refletem a forma como os empreendedores-gestores entendem e lidam com as transformações já absorvidas e as que ainda vão surgir em seus mercados invadidos por ondas de tecnologias disruptivas.
1. Pré-Formal Analógica (B1G-1). Fase reativa inicial (negação da disruptura e apego ao analógico). Aqui, estão os idosos atuais (mais de 70 anos), que só usam as novas tecnologias quando precisam ou por obrigação legal. Preferem o mundo pré-computador e vivem em modelos mentais do pré-formalismo lógico-científico. Gostam de rotinas lentas e relacionamentos profissionais duradouros baseado em confiança.
2. Formal Impactada (B1G-2). Fase inovadora (percebem a chegada das novidades digitais e incorporam algumas). Aqui, estão os maduros (mais de 50 anos), que usam tecnologias mais acessíveis como complemento para a sua vida analógica. Assim, operam em modelos mentais do formalismo lógico-científico da primeira metade do século XX. Apreciam os avanços que a tecnologia propõe, desde que conduzidos por outros (familiares ou colaboradores). Gostam de conhecimento especializado e valorizam competências profissionais.
3. Formal Adaptada (B1G-3). Fase de transição analógico-digital superficial (entendem a disruptura digital e adotam o que precisam). Aqui, estão os adultos (mais de 35 anos), que tiveram contato com grandes avanços tecnológicos na adolescência. Usam essas inovações no trabalho e no lazer (e-mails, bancos de dados, planilhas, programas gráficos, games etc.), em modelos mentais do formalismo lógico-científico do final do século XX. Escolhem tecnologias conforme as necessidades e gostam de dominar múltiplas competências, baseando o desempenho profissional em resultados.
4. Formal Transformada (B1G-4). Fase de transição analógico-digital profunda (imersão na cultura digital e criação de negócios digitais). Aqui, estão os jovens (mais de 20 anos), que cresceram com os avanços tecnológicos na infância e operam principalmente no mundo digital (redes sociais, games, smartphones). Vivem virtualmente, usando a computação em nuvem e se aprofundam em conhecimento só quando necessário (formalismo lógico-científico). Seu relacionamento profissional se baseia no prazer da convivência e na realização pessoal.
5. Pós-Formal Digital (BIG-5). Fase do superestrato digital dominante (fazem propostas de valor digitais desde o início). Aqui, estão as crianças e adolescentes (mais de 5 anos), que nasceram em meio às tecnologias mais recentes. Têm dificuldade em tarefas puramente analógicas e preferem a virtualização total (gaming, redes sociais, comunicação, produção). Aprendem por demanda (on-demand) com serviços de streamings (YouTube) e usam inteligências artificiais integradas para o que precisarem. Eles não percebem a tecnologia como algo “especial”, pois ela está integrada a suas rotinas. Mantêm poucos relacionamentos profissionais e seus resultados tendem a ser egocêntricos.
Essa última fase influenciará o modelo das organizações por um bom tempo, com ajustes pontuais. Os formatos futuros de operação, oferta, transação e entrega de valor tenderão ao alinhamento com os novos mindsets digitais daqui em diante.
Observação. A relação entre as fases da disruptura B1G e faixas etárias é apenas um guia para explicar como cada geração lida com as tecnologias disponíveis. Na prática, um idoso pode estar na 4ª fase (formal transformada) e um adolescente na 3ª (formal adaptada), porque o fator principal é o tempo de contato e interesse pela tecnologia, não a idade. Por exemplo, uma pessoa pode ter começado a programar aos 60 anos, enquanto um jovem de área rural sem internet só conheceu as redes sociais ao se mudar para a cidade.
Figura 10 - Transição Analógico-Digital: Tipos de (Neo)empreendedorismo
Neste livro, trataremos das características dessas fases e do valor que as novas tecnologias podem trazer para o empreendimento, principalmente em temas sobre formatos empreendedores na B1G.
O mínimo obrigatório
Não estamos tratando de comprar uma impressora 3D de última geração em marketplaces virtuais especializados. Estamos falando de não ser um analfabeto funcional no século XXI. Há medidas inadiáveis que, se ignoradas, decretam sua exclusão do mercado.
Dividimos o “mínimo obrigatório” em conhecimentos tecnológicos em duas esferas: o cidadão digital e o empreendedor digital. Vejamos características das pessoas que podem ostentar ambos os “passaportes”.
1. Fluência pessoal (o cidadão digital):
a) navegação – usar GPS (Waze, GMaps) sem medo;
b) identidade – portar documentos digitais (CNH, RG, Título) no celular;
c) consumo – pedir comida e transporte por apps e comprar em marketplaces (Amazon, Mercado Livre);
d) conexão – enviar arquivos na nuvem, imprimir via Wi-Fi e configurar assistentes (Siri, Alexa);
e) finanças – usar bancos digitais e pagamentos instantâneos (pix, carteiras digitais).
2. Fluência de negócios (o empreendedor digital):
a) burocracia ágil – assinaturas eletrônicas e certificados digitais. Nada de cartório físico se não for obrigado;
b) fiscal – resolver pendências tributárias nos portais do governo;
c) visibilidade – criar e impulsionar anúncios básicos em redes sociais;
d) automação – instalar novos app’s no celular e usar ferramentas de IA (como ChatGPT ou Claude) para rascunhar textos e ideias;
e) transação – aceitar todas as formas de pagamento eletrônico.
Em relação a cultura digital, esqueça a ideia de que você precisa de um curso formal para aprender a usar o Instagram, editar um vídeo no CapCut ou trabalhar com o ChatGPT.
O novo mundo espera que você tenha desenvoltura digital. A competência mais valiosa hoje não é saber tudo, mas saber descobrir tudo. A resposta para “como faço isso?” está a um “prompt” de distância. Tutoriais no YouTube, fóruns e blogs ensinam em minutos o que cursos antigos levavam semanas.
O neoempreendedor não espera o professor; ele mergulha e aprende sozinho. E você, onde está? Para saber seu nível real de maturidade nessa transição, use nossa ferramenta exclusiva “Autodiagnóstico B1G Spectrum” no site www.bizzling.com.br.
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