Além de reconhecer essas características individuais cumulativas, o neoempreendedor pode tirar proveito de ferramentas que busquem alinhar seu propósito pessoal com a oportunidade de negócio que pretende desenvolver.
Nesse sentido, sugerimos usar o IKIGAI 16 – uma variante que desenvolvemos do Ikigai japonês. Ele funciona como um mapa de alinhamento pessoal, obtido a partir da interseção dos quatro elementos centrais: “aquilo que você sabe fazer”, “aquilo que você ama”, “o que o mundo precisa” e “aquilo que você é pago para fazer”.
Figura 35 – IKIGAI (Razão de Ser): Mapa de Alinhamento Pessoal
Vejamos um exemplo prático do IKIGAI tradicional. Imagine um profissional de tecnologia apaixonado por educação que identifica a falta de plataformas acessíveis de ensino para comunidades carentes. Ao criar uma startup de educação digital, ele consegue unir sua habilidade técnica (o que sabe fazer) e seu amor por ensinar (o que ama) com uma demanda real da sociedade por educação inclusiva (o que o mundo precisa) em um formato viável de negócios (aquilo pelo qual pode ser pago).
A diferença do IKIGAI 16 está em que, diferentemente do formato tradicional que combina os elementos dois a dois, nossa derivação usa as quatro diretrizes simultaneamente, resultando em dezesseis estágios progressivos de alinhamento.
Para obter essa escala, atribuímos prioridades distintas a cada um dos quatro fatores do IKIGAI tradicional, em vez de considerar todos eles com o mesmo peso. A hierarquia foi definida do fator considerado mais essencial para o menos essencial a uma realização plena, levando em conta viabilidade prática e significado.
1. “É Pago” (remuneração) – foi tratado como o fator de maior peso na escala. Ter remuneração (ser pago pelo que se faz) recebeu a prioridade máxima porque representa viabilidade de sustento e reconhecimento externo. Na prática, sem nenhuma remuneração, a atividade pode não ser sustentável a longo prazo; por isso, quando este é o único fator presente, ainda assim ele proporciona a sobrevivência básica. Entre os quatro, “É Pago” recebeu o maior valor isolado (27 pontos de 100), refletindo sua importância para a estabilidade de vida no modelo.
2. “Mundo Precisa” (utilidade social) – foi o segundo fator em prioridade. Fazer algo de que o mundo ou a comunidade precise indica relevância social e propósito. Demos a ele o segundo maior peso isolado (20 pontos). A lógica é que, mesmo sem retorno financeiro ou paixão pessoal, se uma atividade atende a uma necessidade real, ela possui um valor moral-social elevado. Quando presente sem outros fatores, a pessoa percebe uma necessidade do mundo, mas ainda não a conecta com talento, amor ou ganho. Esse fator aparece alto na hierarquia porque agrega significado e propósito altruísta à equação.
3. “Sabe Fazer” (talento ou mérito) – foi o terceiro em prioridade. Ser bom naquilo que se faz (ter habilidade ou mérito) recebeu um peso intermediário (13 pontos isolados). Valorizamos a competência porque, do ponto de vista prático, ter habilidade permite contribuir de forma efetiva e sentir mérito pessoal. No entanto, sozinho, um talento não aplicado a algo amado, necessário ou remunerado torna-se uma habilidade subutilizada. Portanto, na hierarquia, “Sabe Fazer” fica abaixo de necessidade social e remuneração, mas acima do amor puro, pois habilidade (mérito) dá potencial de realização caso outros fatores entrem em jogo.
4. “Ama” (paixão) – foi considerado o fator de menor peso relativo. Fazer algo que se ama tem enorme importância para satisfação pessoal, mas isoladamente (sem ser útil, sem ter habilidade ou sem remunerar) nós o avaliamos como o menos impactante em termos de realização concreta (7 pontos isolados, o menor valor dos quatro). Sozinho, isso é algo que traz alegria pessoal, porém sem resultado prático ou garantia de sustento. Colocamos “Ama” em último na prioridade relativa porque, do ponto de vista de construir um IKIGAI, a paixão sem utilidade, sem competência ou sem viabilidade financeira tende a ser algo mais hedônico, de impacto limitado.
Em resumo, se apenas um dos quatro pilares estivesse presente na vida de alguém, consideramos que sobreviver (remuneração) seria a condição mais básica atendida, então isso recebe a maior pontuação dentre os isolados. Em seguida vem atender a um propósito maior (mundo precisa), depois ter uma habilidade/mérito e, por último, ter paixão apenas. Essa ordem de prioridade reflete uma combinação de pragmatismo e significado – garantindo primeiro a subsistência, depois a contribuição ao próximo, em seguida a competência pessoal, e finalmente o gosto pessoal. Vale notar que isso não diminui a importância de fazer o que se ama, mas indica que, na ausência dos outros fatores, amor sozinho tem o efeito prático mais limitado na realização de um Ikigai 16 completo.
A ordem de pontuação dessas 16 combinações segue uma progressão lógica do vazio ao completo, guiada pelos pesos atribuídos a cada pilar:
a) primeiro avaliamos quantos fatores estão alinhados – nenhum (pior caso); um (baixo); dois (médio); três (alto) ou quatro (pleno) e
b) depois, dentro de cada posição, usamos a importância relativa dos fatores para desempate.
Por exemplo, com um fator só: ter apenas “É Pago” dá mais pontos que ter apenas “Ama” etc., conforme apresentado. Com dois fatores: as combinações que incluem fatores de maior peso (especialmente “É Pago” ou “Mundo”) tendem a marcar mais que aquelas sem eles – por isso “Prazer Remunerado” (que inclui pago) fica no topo dos dois-fatores, e “Paixão” (que carece dos dois fatores mais fortes) fica na base desse mesmo grupo. Com três fatores: a pontuação é quase no topo, então a diferença sutil vem de qual fator falta, punindo mais a ausência dos pilares prioritários (faltar remuneração derruba um pouco mais a nota do que faltar amor).
Cada uma das 16 combinações de respostas (sim/não) para os quatro círculos do IKIGAI – “Ama” (ao norte), “Mundo Precisa” (à leste), “É Pago” (ao sul) e “Sabe Fazer” (ao oeste) – corresponde a uma situação nomeada na métrica de alinhamento (de 0 a 100). A tabela abaixo mostra os nomes e pontuações de cada combinação, em ordem crescente de alinhamento, do 0% (desconexão total) ao 100% (IKIGAI pleno).
1. Desconexão Total (0%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Não; É Pago: Não; Sabe Fazer: Não. Indica a ausência completa de alinhamento em todos os aspectos. Ou seja, a pessoa não ama o que faz, não tem habilidade particular, não vê utilidade para o mundo nem obtém remuneração nessa atividade.
2. Hobby Puro (7%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Não; É Pago: Não; Sabe Fazer: Não. Isso indica que a pessoa ama a atividade (é uma paixão pessoal), porém não a domina tecnicamente, não percebe demanda no mundo nem recebe por ela – caracterizando um hobby ou interesse pessoal sem retorno externo.
3. Talento Ocioso (13%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Não; É Pago: Não; Sabe Fazer: Sim. Representa uma habilidade/talento que a pessoa possui, mas que está ociosa: não é algo que ame fazer, não enxerga necessidade externa para isso e não está sendo remunerado.
4. Consciência Social Solta (20%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Não; Sabe Fazer: Não. Indica uma sensibilidade a um problema ou necessidade social (consciência do que o mundo precisa), porém sem amor pessoal pela atividade, sem habilidade própria aplicada e sem remuneração. Sugere uma boa intenção/despertar social ainda não conectado à paixão, competência ou sustento financeiro.
5. Sobrevivência Cega (27%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Não; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Não. Retrata a situação em que a pessoa apenas ganha dinheiro com a atividade, mas não ama o que faz, não utiliza um talento especial nem vê propósito ou necessidade maior. Simboliza um trabalho de sobrevivência, feito só pelo salário, sem alinhamento pessoal ou vocacional – “cego” em sentido de falta de significado além do financeiro.
6. Paixão (33%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Não; É Pago: Não; Sabe Fazer: Sim. Denota que a pessoa ama a atividade e tem domínio/habilidade nela (formando uma paixão genuína pelo que faz), porém essa paixão não se converte em impacto para o mundo nem em remuneração. Indicando alta realização pessoal, mas falta dos fatores externos de necessidade e pagamento.
7. Missão (40%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Não; Sabe Fazer: Não. Representa um chamado ou missão: a pessoa ama a causa e enxerga que o mundo precisa disso, contudo não se sente habilidosa o suficiente ou não obtém sustento financeiro com ela. Indica inspiração e propósito presentes, mas faltando a competência ou estrutura para viabilizar e executar plenamente.
8. Profissão (47%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Não; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Sim. Este padrão mostra que a pessoa é habilidosa na atividade e recebe por ela – ou seja, exerce uma profissão – mas não tem amor por esse trabalho nem o percebe como necessidade maior do mundo. Simboliza uma atuação competente e remunerada, porém sem paixão ou sentido de propósito, resultando em um vazio/viver no “modo automático”.
9. Vocação (53%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Não. Indica uma vocação no sentido de mercado: existe demanda do mundo pela atividade e ela proporciona remuneração, entretanto a pessoa não tem afinidade pessoal (não ama) nem domina suficientemente a área. Reflete alguém que entrou pela oportunidade e dinheiro, mas pode não sustentar no longo prazo por faltar envolvimento e competência.
10. Utilidade Latente (60%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Não; Sabe Fazer: Sim. A figura mostra habilidade e necessidade do mundo alinhadas, porém sem amor pessoal pela atividade nem remuneração. Representa uma utilidade latente: a pessoa tem uma capacidade que é útil e demandada, mas não a monetiza nem tem paixão por ela. Falta transformar essa utilidade em algo sustentável e significativo pessoalmente.
11. Prazer Remunerado (67%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Não; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Não. Indica que a pessoa ama o que faz e consegue ganhar dinheiro com isso, apesar de não ter tanta competência técnica ou de a atividade não atender a uma necessidade clara do mundo. Sugere alguém que vive de um prazer pessoal, mas que pode enfrentar instabilidade pela falta de qualificação ou relevância profunda (a entrega pode ser inconsistente ou modismo).
12. Propósito sem Renda (73%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Não; Sabe Fazer: Sim. Indica que a pessoa ama, tem competência e gera impacto/atende a uma necessidade, porém não consegue obter renda disso – vive seu propósito nem renda. Esse desequilíbrio financeiro representa um risco de esgotamento por falta de sustentabilidade.
13. Carreira Autorreferente (80%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Não; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Sim. Indica que a pessoa ama o que faz, é habilidosa e é bem paga, porém falta o aspecto “mundo precisa” – ou seja, o impacto é restrito ou questionável. Sugere uma carreira voltada a um nicho pessoal, potencialmente em uma “bolha” de relevância. Ressalta a falta de conexão com uma causa maior apesar do sucesso pessoal/financeiro.
14. Causa Sustentada (sem base) (87%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Não. Indica que há paixão pela causa, propósito e sustentação financeira, mas falta domínio/habilidade técnica (“sem base” de competência). A pessoa está engajada em uma causa importante e financiada, porém insegura na execução, podendo não cumprir o que promete por carência de preparo (reputação em risco se a base técnica não for desenvolvida).
15. Serviço Rentável (93%) – Ama: Não; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Sim. Aqui a única ausência é no que ama, indicando que a pessoa tem habilidade, atende a uma necessidade real e é bem paga, contudo não ama o que faz – está prestando um serviço rentável “sem alma” ou satisfação pessoal. Isso evidencia o vazio de paixão, sugerindo risco de desgaste emocional e autossabotagem apesar dos bons resultados.
16. IKIGAI (Alinhamento Pleno) (100%) – Ama: Sim; Mundo Precisa: Sim; É Pago: Sim; Sabe Fazer: Sim. Este é o alinhamento máximo em que a atividade reúne paixão, talento, missão e profissão. Visualmente, o círculo fica inteiramente preenchido, simbolizando plenitude e equilíbrio: a pessoa ama o que faz, é competente, realiza algo necessário ao mundo e é remunerada por isso, atingindo 100% de alinhamento.
Esse sistema cria uma escala gradativa e coerente: a cada passo adicionando um novo pilar do IKIGAI, a pontuação sobe de maneira significativa, mas não apenas linearmente – sobe também conforme a “qualidade” desse alinhamento melhora.
Cada um desses estágios leva o empreendedor a refletir, respectivamente, sobre suas principais habilidades, suas paixões e interesses genuínos, as necessidades ou problemas do ambiente que mais o sensibilizam e as formas de obtenção de renda ligadas a essas atividades.
O grau de convergência apontado a partir da posição nos 16 estágios da escala revela a prontidão para empreender em uma área de atuação específica. Em outras palavras, geramos um Ikigai que avalia quão alinhado você está para a realização de uma jornada neoempreendedora.
Em vista disso, vale ao futuro neoempreendedor aplicar o IKIGAI 16 (disponível no site www.bizzling.com.br), refletindo honestamente sobre seu atual estado de alinhamento.
Analisar essas respostas funciona como um exercício estratégico de alinhamento pessoal. O resultado é um quadro único – o mapa do seu IKIGAI 16 – que orientará suas decisões empreendedoras e servirá de âncora motivacional nos momentos desafiadores.
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