Cada grande transformação tecnológica na história trouxe novos modelos de produção e consumo. Para analisar melhor as iniciativas empreendedoras atuais, devemos considerar como esses modelos surgiram e evoluíram. A seguir, um breve resumo da história empreendedora da humanidade:
a) subsistente-sobrevivente – o primeiro modelo de geração de valor começou na Pré-história, com atividades de caça e pesca para sobrevivência. Este modelo ainda é usado por algumas tribos isoladas na África, Oceania e América do Sul;
b) produtor-acumulador – por volta de 10.000 a.C., com o início da agricultura, os humanos começaram a se fixar à terra, acumulando alimentos para épocas de escassez. Essa reserva de excedentes permitiu a formação de aldeias onde produziam e compartilhavam o resultado;
c) explorador-conquistador – por volta de 4.500 a.C., formavam-se clãs cada vez maiores e, ante a incapacidade de sustentar todos os seus membros, os grupos mais fortes passaram a conquistar territórios e realizar saques nas populações mais fracas. A forma de obter riqueza estava centrada na exploração de minerais, vegetais, animais e até pessoas tomadas como escravos. Esse modelo foi dominante por quase 6.000 anos e só perdeu força com o Iluminismo europeu (século XVII). Mesmo assim, ainda é usado em certas partes isoladas do globo terrestre;
d) artesão-comerciante – por volta do século IX, surgiram pequenos povoados na Europa feudal chamados burgos. Nesses lugares, o comércio e a prestação de serviços se intensificaram. Artesãos, ferreiros, comerciantes e outros profissionais passaram a oferecer seus produtos e serviços nessas cidades, que foram se tornando centros de atividade econômica. Assim, surgiu uma nova classe social, os burgueses, que ganharam riqueza e mais liberdade, marcando o começo de uma economia urbana e comercial paralela ao sistema rural feudal;
e) empresarial-capitalista – por volta de 1760, inicialmente na Inglaterra, surgiram fábricas com motores a vapor – espaços que concentravam pessoas e máquinas em trabalhos de até 18 horas/dia. Essa revolução da produção em massa expôs necessidades e gerou novos formatos empreendedores. Este ciclo de demanda-oferta deu início aos mercados como conhecemos hoje;
f) empregado-provedor – na metade do século XIX, com a modernização industrial, mudanças socioeconômicas aconteceram, incluindo o empoderamento de profissionais técnicos e a inserção de mulheres na produção de armamentos na Segunda Grande Guerra. Com essa demanda, universidades ampliaram seus cursos de engenharias, fornecendo mão-de-obra qualificada para lidar com máquinas para todos os usos. Este modelo se caracteriza por produções industriais em larga escala, distribuidoras regionais e redes varejistas;
g) aglutinador-replicador – no final do século XX, com a automação industrial e o acesso a informações digitais, surgiu um novo modelo de produção e consumo virtuais baseado em profissionais organizados como “fábricas” virtuais de atividades não-físicas, tais como: ensino-aprendizagem, informação e comunicação, finanças e investimentos, marketing, entretenimento, design e arquitetura, serviços de intermediação e controle de qualquer natureza entre outros. Assim, os modelos empresarial-capitalista e empregado-provedor evoluíram para formatos replicáveis, permitindo operações mais inteligentes e eficientes, com trabalhadores especializados cuidando das atividades organizacionais, enquanto a automação lida com tarefas não físicas e
h) virtualizador-autoprovedor – no início do século XXI, profissionais do conhecimento começaram a usar ferramentas inteligentes para otimizar sua oferta de valor ao mercado. Este modelo é representado por empreendimentos de um só indivíduo, com o foco em prestação de serviços, como: agentes afiliados, autônomos da saúde, investidores financeiros, designers, produtores de mídia, gestores de redes sociais, certificadores, agentes de coaching, consultores de negócios, influencers, entre outros.
Figura 26 - Cronologia dos Modelos de Geração de Valor
Todos esses modelos de geração de valor e seus formatos empreendedores ainda estão em uso nos contextos socioeconômicos atuais. Interessam-nos os mais recentes: o aglutinador-replicador e o virtualizador-autoprovedor, pois caracterizam o que denominamos neoempreendedorismo.
Sobre os demais modelos, é desnecessário abordá-los neste livro, pois há extensa literatura à disposição dos interessados, inclusive sobre a geração de valor, com suas projeções, propostas e percepções.
O modelo virtualizador-autoprovedor vem recebendo atenção de especialistas e pesquisadores em gestão há pouco tempo. Como sua dinâmica de geração de valor é a mais recente resposta às demandas de produção-consumo do século XXI, ainda há poucos estudos sobre seus formatos empreendedores. Mas, em breve, veremos vasto material sobre como organizar recursos, produzir e transacionar valor praticamente sozinhos.
Por enquanto, não abordaremos, diretamente, o modelo virtualizador-autoprovedor, mas vamos analisar como negócios aglutinadores-replicadores empoderam autoprovedores para atuar em pontos de agregação de valor em seus fluxos de rápido crescimento.
São esses dois modelos empreendedores que formam o contexto do neoempreendedorismo: um de transição mais superficial, em que as demandas analógicas ainda são relevantes (o aglutinador-replicador) e outro, de ajuste mais profundo, com as demandas digitais no foco da geração de valor (o autoprovedor-virtualizador).
Nesta obra, que abrange o período no qual emergem ambos os modelos citados, escolhemos abordar os processos de projeção, proposta e percepção de valor do modelo aglutinador-replicador de inteligências a serviço de rápida expansão e multiplicação.
Essa escolha se deveu à profunda transformação que esse modelo e seus formatos vêm causando na socioeconomia local-global dos tempos atuais, com o movimento empreendedor de incubadoras em decadência, alavancadoras em alta e fintechs/startups em ebulição.
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