É nesse contexto que entra a Matriz IRAG. Ela nos serve para ponderar os quatro papéis empreendedores ao longo das fases de concepção, implantação, lançamento, gestão, correção e expansão do negócio. IRAG é o acrônimo para idealista, racional, artesão e guardião, representando, respectivamente, o pensador visionário, o planejador lógico, o executor prático e o protetor dos processos e padrões.
Relembremos as competências ao longo dessas seis fases:
a) (I) idealista – o motor do “e se?”; é quem vê o prédio pronto quando só existe um terreno baldio;
b) (R) racional – o arquiteto da lógica; é quem pergunta “quanto custa?” e “como vamos chegar lá?”;
c) (A) artesão – o braço que constrói; a ação pura, o hands-on, a tração e
d) (G) guardião – o escudo da empresa; é quem garante que o prédio não vai cair, cuidando dos processos, riscos e qualidade.
Quem entende esses diferentes papéis, adquire autoconsciência estratégica. Se você é um idealista puro tentando gerenciar uma fase de equilíbrio, vai ficar entediado e criará o caos apenas para se sentir vivo. Se você é um guardião tentando liderar a fase de concepção, matará a inovação antes dela nascer por temor ao risco.
O segredo da longevidade empresarial é saber qual “chapéu” usar em cada etapa. Vamos analisar as fases de um ciclo de vida retificado, onde corrigimos as falhas clássicas de gestão.
1. A Concepção (o sonho viável). No início, o idealista é rei. Sem ele, não há faísca. Mas cuidado: uma ideia sem viabilidade é alucinação. Aqui, o erro comum é ignorar totalmente o risco e a estratégia. A correção possível é usar doses de racionalidade para modelar o negócio e, sim, um pouco de controle. Por quê? Para saber se o seu sonho é legal, ético e tecnicamente possível. Saber o que não fazer economiza milhões.
2. A Implantação (a hora da verdade). O powerpoint aceita tudo; o mercado, não. Aqui, o artesão assume o comando, pois é hora de fazer. O erro comum é adotar o lema do “vamos logo” – sair fazendo sem planejar. Isso gera retrabalho e queima de caixa. A correção possível é elevar o guardião para um papel integrante, já que a força bruta do artesão precisa ser guiada por um cronograma exequível.
3. A Gestão (o pêndulo do negócio). Esta fase é traiçoeira. Ela se divide em dois momentos vitais:
a) equilíbrio – a empresa precisa pagar as contas. O tédio é lucrativo. Processos (o guardião) e execução (o artesão) dominam e o idealista deve sair da sala para não atrapalhar a rotina.
b) realinhamento – o equilíbrio dura pouco. O mercado muda. Aqui, precisamos “quebrar” a rotina. O idealista e o racional voltam com força total para reinventar o negócio antes que ele se torne obsoleto. É a “segunda curva” de crescimento.
4. A Expansão (onde os amadores quebram). Aqui reside a maior lição desse caso retificado. Expandir significa replicar sucesso em escala. Na expansão, o idealista define o destino (integrante); o racional desenha o mapa (essencial); o guardião (apoio) garante que o trem não descarrile em alta velocidade e o artesão (o dono fazendo tudo) deve tirar férias. Se você ainda estiver “apertando parafusos” na fase de expansão, você é o gargalo.
Figura 25 - Matriz de Relevância IRAG: Perfil Empreendedor X Fase do Negócio
A figura mostra o peso de cada perfil em seis momentos: concepção, implantação, lançamento, equilíbrio, correção e expansão. As bolhas indicam se o perfil é essencial, integrante ou complementar.
Concepção, correção e expansão são fases puxadas por visão e leitura de futuro; por isso o idealista e o racional são relevantes. Já as fases de implantação, lançamento e equilíbrio são puxadas por características de execução e consistência; por isso o artesão e o guardião emergem para o comando.
Observemos, também, que, mesmo quando um perfil não assume a liderança em determinada fase, ele precisa estar “no radar”, atuando em papel complementar e garantindo que as diferentes perspectivas estejam presentes no processo decisório.
Por exemplo, o idealista aparece como complementar nas fases de implantação, lançamento e equilíbrio, porque, se a empresa quiser crescer sempre, ela precisa manter um fio de futuro mesmo quando estiver enterrada em rotinas. É aquele olhar que pergunta, silenciosamente: “o que está acontecendo com o mercado?”, “qual teste pequeno cabe nesta semana?”, “que melhoria reduz atrito agora?”.
Da mesma forma, o guardião surge como complementar nas fases de concepção, realinhamento e expansão. Mesmo correndo o risco de travar o desenvolvimento, ter um freio de mão pronto para uso em situações emergenciais é parte do processo evolutivo de uma organização. A inovação pede por um mínimo de proteção, pois promessas não devem ser desfeitas, riscos não podem ser ignorados e padrões básicos precisam ser mantidos.
Se você está na fase de implantação e só tem idealistas debatendo, você não está implantando, mas vivendo um prolongamento de concepção. Se você está realinhando operações, mas só tem guardiões controlando processos, nada mudará porque quem está comandando tem medo de mudanças.
Por último, esses papéis funcionam como lentes de comportamento, não rótulos morais. Um idealista é quem enxerga possibilidades e futuro. Um racional é quem pensa, compara, mede e resolve. Um artesão é quem faz, constrói, executa e coloca em movimento. Um guardião é quem controla padrão, segurança e consistência. Cada um desses perfis é mais ou menos relevante em determinadas fases, mas todos têm a sua função no equilíbrio do momento.
Uma observação. Apesar de improvável, não é impossível que uma só pessoa consiga desempenhar todos esses papéis, agindo ora como um idealista visionário, ora como um artesão cheio de energia, por exemplo. O problema é você, como um idealista, cortar investimentos de um projeto fantástico que pode levar a empresa à falência ou, ainda, enquanto no papel de artesão, segurar a expansão enquanto licenças ainda estiverem pendentes.
Sendo, por natureza, um sonhador, conseguiria cortar as asas de seu sonho? E se fosse uma pessoa mão na massa, conseguiria esperar a finalização da burocracia para lançar sua expansão?
CapítuloGestão
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