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O neoempreendedorismo aglutinador-replicador

Todos os modelos empreendedores são geradores de valor em certo grau, mas o foco aqui é o neoempreendedorismo aglutinador-replicador por suas características únicas de atratividade e capacidade de viralização social. Neste início de terceiro milênio, a humanidade, impulsionada pelos meios de informação e comunicação eletrônicos, tem a chance de unir conhecimentos globais para criar negócios geradores de valor com grande capacidade de replicação dirigida. Seriam operações com o DNA de expansão desde sua concepção. A princípio, esse modelo aglutinador-replicador era representado por franquias, incubadoras e alavancadoras, promovendo a aproximação de diversas áreas de inteligência para criar e estruturar operações com objetivos claros e alinhados desde a origem até o destino: gerar soluções valiosas para seus consumidores-clientes-interagentes. Dessa maneira, os proprietários desses negócios expandiam suas operações e mantinham o controle da geração de valor por meio de royalties e licenças diretas, recebidos periodicamente em troca de marcas registradas e processos operacionais. Considerando que modelos empreendedores e seus respectivos formatos de negócios são dinâmicos, ou seja, nascem, crescem, amadurecem, envelhecem e morrem, os formatos de franquias e licenciamentos atuais representam esse primeiro momento de transição entre os modelos empresarial-capitalista e aglutinador-replicador, mas não serão seus formatos definitivos. Nenhum mercado será previsível enquanto as forças tecnológicas, econômicas, socioculturais e regulatórias continuarem instáveis. Se as escalas de valores continuam volúveis e liquefeitas, tudo ainda pode mudar enquanto permanecemos à espera de uma solidificação futura. Entre essas indefinições à espera de estabilização, temos como exemplo: noções de gênero (indefinições de papéis) e família (duração de vínculos); alterações na produção de alimentos (agora orgânicos) e seleção para o consumo (veganismo); transição para uma educação pós-contemporânea (mais reflexiva e menos conteudista); novos conceitos de trabalho (mais mental) e organização do trabalho coletivo (mais virtual); consumo consciente (produção ética); valoração da saúde (longevidade saudável); entre outros. Essas incertezas que sacodem os padrões comportamentais indicam que o modelo aglutinador-replicador ainda não atingiu sua maturação. Além disso, vivenciamos um desenvolvimento mais orgânico nos ciclos de vida dos formatos de negócio. Agora, as pessoas não só consumem as soluções. Elas também participam de sua criação, misturando os papéis de produtor e consumidor. Logo, o que enxergamos é uma migração de poder, antes na mão dos criadores do negócio – franqueadores, incubadores, alavancadores e afins –, para redes de usuários-participantes que agem organicamente nos processos de criação, ajuste e manutenção. Exemplos incluem: a) redes de carros, patinetes e bicicletas para autosserviço – Turbi, Zazcar, Yellow; b) redes de autotransporte e delivery – Uber, Lyft, 99, iFood, Rappi; c) sistemas direcionadores de transporte – Waze, Google Maps; d) redes de “coworking” – WeWork, Office Evolution, REGUS e e) bancos digitais – o alemão N26, o norte-americano Capital One e os brasileiros Nubank, Inter, C6, PagSeguro, Next. A capacidade de replicação orgânica desses formatos neoempreendedores se sustenta na percepção de valor, incluindo, aí, os sentimentos de pertencimento (a uma coletividade representativa), utilidade (consumo ético) e corresponsabilidade social (contribuição para um mundo melhor). As pessoas querem seguir uma causa, ser úteis e contribuir para o bem comum. Figura 27 - Sentimentos Profundos: Contexto da Atual Década de 2020 O neoempreendedorismo aglutinador-replicador é desafiador e atrai empreendedores mais jovens, que trilham esse novo caminho por iniciativa própria. Isto aponta para uma nova tendência comportamental no contexto dos negócios daqui em diante. O novo empreendedor troca o controle direto sobre os resultados operacionais pela possibilidade de monetizar futuramente as relações de valor desenvolvidas na rede-comunidade. À medida que o negócio cresce, os participantes se transformam em novas fontes de valor, expondo suas demandas por vínculos de pertencimento, utilidade e significado. Este comportamento, que se desenvolve entre os interagentes de forma orgânica, promove inovações contínuas e induz mudanças, pois, em uma rede-comunidade, revelam-se, a todo instante, novas projeções de oportunidades à espera de quem as viabilize.