É comum pensar que todas as pessoas deveriam ter um comportamento semelhante baseado em preceitos morais e éticos. No entanto, somos indivíduos únicos, vivendo em contextos diferentes e acumulando diversas experiências ao longo da vida.
Somos uma grande diversidade que ainda se ilude, ao achar que todos percebem a realidade por meio de um único conjunto de padrões comportamentais: o nosso.
Por natureza, somos diversos, pois “os aspectos internos da personalidade e da cultura geral se refletem na maneira como nos expressamos tanto no comportamento individual quanto em nossa ação coletiva no contexto socioeconômico” (Modelo AQAL , “Uma Teoria de Tudo”, Ken Wilber, 2001).
A falta de uniformidade interna e externa se apresenta nas experiências de cada um, em como refletimos, tomamos decisões, agimos e lidamos com os erros pelo caminho.
Essa diversidade inclui posturas conservadoras e liberais, éticas ou não, conformistas e rebeldes, de pessoas mais emocionais ou racionais, extrovertidas ou introvertidas. A atitude empreendedora, apesar de ser uma capacidade do ser humano, não se manifesta naturalmente em todos. É preciso que algumas dessas variáveis se alinhem para surgir o desejo de transformação e mudança da realidade para melhor.
Ao considerar os empreendedores, existe uniformidade só na essência da atitude empreendedora: tentar, errar e tentar novamente até realizar; criar condições para fazer o que não existe, ou que nunca foi feito ali daquela forma; trazer um sonho para o mundo real e enfrentar as dificuldades envolvidas em concretizá-lo. No entanto, cada pessoa empreende de maneira única.
Com tantas variáveis envolvidas, ninguém se torna um empreendedor seguindo uma receita pronta de um coach , pois não há fórmulas mágicas para isso. É um caminho individual de construção, por meio de conhecimentos e experiências, que envolve a dinâmica de cada mercado, o modelo de negócio, o formato escolhido e o modelo mental da pessoa que deseja empreender.
Ao falar de comportamento, entramos no campo da Psicologia. Modelos psicométricos de tipologia da personalidade como o MBTI e o DISC nos ajudam a entender os diferentes padrões de comportamento que mostramos em nossas ações e interações.
Em relação ao potencial empreendedor, esses testes psicométricos nos permitem enxergar a humanidade distribuída em grupos de perfil comportamental, tais como:
a) os visionários – algumas pessoas são inconformadas com a realidade. São indivíduos mais emocionais, que tendem a buscar soluções para resolver os problemas que percebem. Vivem mais em suas projeções mentais, criando cenários de possibilidades (concebedores);
b) os estruturadores – existem os mais racionais, com desejo de preparar o mundo para uma nova realidade em grandes ações ou até nos pequenos detalhes. Tendem a usar métodos e técnicas para implantar inovações que alterem o status quo;
c) os realizadores – aqueles com um comportamento predominante de “fazer as coisas”, apreciam colocar a mão na massa, são mais práticos e pouco se dedicam a longos períodos de introspecção e
d) os controladores – apreciam rotinas e controles e buscam equilíbrio entre ações e resultados. Eles são responsáveis por o mundo continuar funcionando um dia após o outro. Eles são considerados mantenedores, mas, aqui, por questões do direcionamento do tema, nós os denominaremos controladores.
Figura 18 - Perfis de Potencial Empreendedor (PoE)
Como identificar seu potencial empreendedor (PoE) ainda será tema neste capítulo. Por enquanto, continuaremos com a definição de o que é empreender e quem é um empreendedor.
Empreender começa na percepção de um problema em um fluxo existencial . Esse problema é como um ruído nos movimentos e interações das pessoas com elas mesmas, com outras pessoas ou com organizações; algo que impede, dificulta ou altera o fluxo regular de rotinas – um entrave para continuar, uma necessidade de ajuste, um desejo de fazer diferente.
Exemplos desses impedimentos, dificuldades e alterações em fluxos existenciais seriam: falta de sono à noite, atrasos ao chegar no trabalho, gripe, vendas baixas, entregas incorretas, troca de emprego etc.
As pessoas que percebem ruídos em fluxos existenciais, também têm ideias para resolvê-los. Quem é mais atento ao que vê, lê, ouve, cheira ou vivencia, identifica rapidamente o que pensa ser a solução certa e desenvolve um vínculo com esse insight, gerando oportunidades de atendimento.
Percebemos esses problemas diariamente, mas nem todos se incomodam a ponto de resolvê-los. Essa é a primeira característica dos empreendedores: enxergar soluções para demandas existentes ou latentes.
Apaixonado pela ideia, o empreendedor precisa encontrar pessoas para ajudar a estruturar o projeto – pelo menos, um investidor, pois, uma ideia só se torna uma oportunidade, quando houver viabilidade.
Além do capital, precisamos de quem analise o mercado para dimensionar a demanda e mapear as ofertas existentes. Além disso, dependendo do porte, é bom contar com um consultor de investimentos para analisar o risco e estimar o tempo de retorno do capital. Esse vendedor racional, articulador hábil, é o estruturador – outra faceta do empreendedorismo. É ele quem pega uma oportunidade de atendimento e, agregando o que ela precisa, a transforma em uma proposta de negócio.
Assim que confirmada a viabilidade da proposta, passamos a fazer “as coisas que precisam ser feitas”, ou seja, somos empurrados para o movimento físico, para colocar a mão na massa.
Todos as pessoas se movimentam quando necessário, mas algumas se animam para concretizar projetos, ou seja, realizar. Diferente dos mais imaginativos, que são menos interessados em reconstruir seus sonhos no mundo real, existem os que gostam de estar em movimento e se incomodam ao não ter o que fazer. Esses são os realizadores, os criadores físicos da realidade. Temos aí um terceiro de empreendedores no mercado.
Por último, só fazer as coisas não transforma uma proposta de negócio em uma empresa pronta para operar. Há detalhes para controlar: tempo, dinheiro, especificações. São rotinas que direcionam os esforços e a energia dos envolvidos para a implantação do negócio. Esta é a faceta controladora de um empreendedor.
Apresentamos quatro papéis diferentes no empreendedorismo, cada um com características próprias e importantes em momentos específicos. Logo, empreender não deve ser feito sozinho, mas sim em grupo.
Entretanto, ainda é comum empreender por conta própria. Quem age assim desconsidera que existem diferentes papéis organizacionais; que análise de mercados, concepção de soluções, processos digitais e gestão financeira pedem competências e atitudes diferentes.
Diversidade operacional exige o domínio de diferentes competências.
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