Entendemos que o modelo mental era a maior dificuldade, ou seja, os empreendedores-gestores tentavam interpretar a nova realidade por meio de lógicas e regras do passado. Isto funciona em tempos de repetição de padrões, não em disrupturas. Então, o que fazer? Como estabilizar uma organização ante mudanças generalizadas nos modos de produzir, consumir e viver?
Tudo que estava obscuro com os óculos antigos, ficou claro assim que resolvemos usar as novas lentes de futuro oferecidas pela mudança digital. Ao perceber que o novo não é inimigo de ninguém, entendemos que havia só uma grande falta de bom senso.
Em linhas gerais, se você está no mar em meio a uma forte tormenta, o que poderia ajudar? Bem, nessas situações, precisamos nos manter vivos, saber onde estamos e decidir a melhor rota para chegar em terra firme. Em outras palavras: sobreviver, localizar-se e escolher a direção correta.
Assim, em meio à tempestade, precisávamos de uma boia para sobreviver, de um farol para saber onde estávamos e de uma bússola para orientar o movimento.
A conclusão foi: “se faltava bom senso para entender os problemas dessa transição, deveríamos usá-lo sempre que possível”. Para isso, precisaríamos adaptar as ferramentas já conhecidas. Será que daria certo? Se conseguíssemos, o bom senso seria a nossa boia. Mas afinal, o que são ferramentas?
Quando uma forma de resolver um novo problema prova ser de utilidade para mais de um caso... Eis uma ferramenta!
Ferramentas nada mais são que sistematizações de soluções que deram certo para um tipo de problema em um dado momento – instrumentos criados a partir da percepção de novas necessidades. E se fosse possível usar ferramentas a partir do bom senso? Ajustar a aplicação das teorias do Management caso a caso. Por que não?
O bom senso seria enxergar as ferramentas pelo que elas são: instrumentos, não soluções. Hummm... Isto seria um caminho. Parecia que nossa boia flutuaria, mas faltavam o farol e a bússola.
Onde estávamos realmente? “Sem saber onde se está, qualquer caminho serve, pois vai levar você de nenhum lugar a lugar nenhum,” já dizia o gato a Alice. Precisávamos conhecer nossa posição entre o contexto analógico antigo (ponto A) e o novo mundo digital (ponto B), ou seja, em qual fase da disruptura físico-virtual nos encontrávamos.
O que fazer? Pelo bom senso, estaríamos mais distantes do mundo digital quanto maior fosse o sofrimento operacional ou mercadológico. No mesmo raciocínio, ficaríamos mais alinhados à nova dinâmica existencial quanto menores se tornassem as consequências do impacto da tecnologia eletrônica em nossas operações.
Logo, precisávamos entender o que estava acontecendo, ou seja, mergulhar na cultura digital. Por este pensamento, quanto mais soubéssemos sobre a disruptura, menos ela nos surpreenderia. Apesar de ainda sofrer seus golpes, eles não seriam mais desconhecidos. Fazia sentido? Se sim, teríamos encontrado nosso farol.
Este seria o papel da cultura digital. Começava por entender como sinais elétricos rápidos geraram um novo mundo. Tudo o que veio depois foi desdobramento dessa transformação inicial: planilhas eletrônicas, editores de texto, bancos de dados, algoritmos, linguagens de programação, imagem e som digitais, entre tantos outros.
Além disso, na área profissional, o caminho passava por ler e assistir a vídeos sobre produção enxuta, integração de sistemas, robótica, logística, e-commerce, redes sociais, marketing digital, experiência do usuário e inteligência artificial, entre outros.
Parece muita coisa? De fato, a cultura digital não é apenas acúmulo de conhecimentos. Ela é a base para uma nova vida.
Você não precisa dominar tudo, mas, quanto mais souber sobre qualquer item da lista acima, mais digital você será. O farol pode ser forte ou fraco, não importa. Será da potência que der conta. Mas dispor de luz é o mínimo para sobreviver na escuridão.
Quanto à bússola, acompanhe o raciocínio. O desconhecido sempre é colocado fora de parâmetros. Então, é comum desistir de abordá-lo, preferindo adotar justificativas desautorizantes – “teoria da conspiração”, “milagre”, “fake news”.
Essa postura reflete o comportamento da maioria, excetuando pesquisadores e cientistas. Logo, para achar novas soluções deveríamos nos comportar como investigadores da realidade organizacional-mercadológica. Pensaríamos em ferramentas só após analisar o contexto e visualizar como o bom senso enxergaria o problema.
Assim, sem as algemas dos modelos mentais anteriores, passamos a fazer perguntas simples. Se havia um problema paradigmático (de modelo mental), deveríamos encontrar um novo paradigma para abordá-lo.
Sabíamos que as organizações precisavam de flexibilidade, rápida reação, abandono das partes que atrapalhavam, harmonia de cardume, movimento dirigido a facilidades encontradas no ambiente. Então... Os negócios deveriam ser similares a micro-organismos! Seria possível? Se sim, teríamos encontrado a nossa bússola. Vejamos:
a) tudo que pulsa busca equilíbrio com seu ambiente. Melhor se harmonizar com o seu contexto ou mudar de lugar;
b) os grandes fluxos são imparáveis, como as principais avenidas em alto movimento. Melhor seguir com os que lá estão;
c) os mais aptos sobrevivem. Melhor se tornar um deles;
d) em sistemas orgânicos, cada um faz a sua parte, conscientemente confiando nos demais. Melhor ser íntegro e transparente;
e) os formigueiros são irregulares porque as formigas desviam da terra mais compacta. Melhor buscar o caminho mais fácil para o seu objetivo; etc.
A bússola sempre esteve aqui, bastava enxergar. Ela é a natureza, a dinâmica da vida, o comportamento dos seres humanos – a organicidade do (aparente) caos.
Figura 14 - Novo Paradigma Digital: Kit de Sobrevivência
Como a disruptura digital é complexa, organizamos boias, faróis e bússolas em temas que empreendedores-gestores reconhecessem em sua rotina gerencial.
CapítuloGestão
5 min
Índice: 30